domingo, 17 de dezembro de 2017

Imigrantes haitianos lutam contra o desemprego na Zona Oeste

Reportagem: Mayara Leopoldo / Vivian Carvalho / Daniel Valle

Guerras civis, catastófres, perseguições religiosas e políticas são alguns dos fatores responsáveis pelo deslocamento de cerca de mil imigrantes haitianos para a Zona Oeste do Rio de Janeiro entre 2010 e 2017, mais especificamente, para a comunidade Asa Branca, em Curicica.
Em destaque o haitiano Dieuseul Duclosil que fala 5 idiomas e se sustenta através de "bicos" / Foto: Daniel Valle
O terremoto que devastou o Haiti no ano de 2010, somado com a crise política e econômica do país caribenho, impulsionou os trabalhadores na busca de novas possibilidades. Eles vieram com o objetivo de dar uma condição de vida melhor para suas famílias.

Mas com o término da preparação dos grandes eventos, os empregos formais na construção civil no Brasil caíram. Em novembro de 2015 a área contava com 2,9 milhões de trabalhadores formais, já no ano seguinte foram cortadas 514 mil vagas. Hoje este índice ainda é maior. O sudeste fechou 788.558 empregos com carteira assinada, segundo o Ministério do Trabalho e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).


O sonho se tornou pesadelo?

Com isso, os imigrantes continuam lutando para conseguir empregos formais. Como é o caso de Duclosil de 44 anos. Há 3 anos na Zona Oeste, o haitiano chegou a dar aulas de inglês, francês e espanhol para jovens e adultos da região em uma parceria com a Associação de Moradores da Asa Branca.

— Eu sai do Haiti um ano depois do terremoto, em 2011, e para conseguir um trabalho vim até o Brasil devido as oportunidades. Escolhi o Rio de Janeiro por causa do clima quente encontrado. Aprendi a falar inglês no Haiti e espanhol em Cuba e no Equador, países onde passei antes de chegar no Brasil. Dei aulas de idiomas aqui na Asa Branca em conjunto com o Carlos Alberto da Associação. Hoje estou desempregado e espero que Deus abra uma porta de emprego para a gente — relata Dieuseul.
Viela dentro da comunidade, hoje asfaltada e com saneamento básico / Foto: Daniel Valle
Assim como Duclosil os imigrantes haitianos Fransly Paul, Gyan Joseph e Jocelyn Lassegue estão fora do mercado de trabalho. Paul quer rever seus entes queridos, mas não tem dinheiro para ir até à América Central.

— Eu quero trabalhar. Vai fazer 1 ano e 5 meses sem trabalho, eu tenho família para ajudar, escola do meus filhos para pagar. No Haiti está "brabo" também, quando se fala em emprego. Minha intenção é ajudar meus familiares que precisam de mim e estão lá no Haiti — explica Paul.

— Não tem serviço e tampouco dinheiro, e dinheiro está muito difícil conseguir. Para mandar 100 dólares para o Haiti é preciso enviar 420 reais. A crise está aí. Tudo muito caro para nós — desabafa Gyan.

Já Jocelyn diz que a dificuldade de falar português atrapalha em relação aos empregos que aparecem. Esclarece também que no Brasil se trabalha muito e se ganha pouco. E mandar 500 reais equivale a aproximadamente 100 dólares.

Conhecendo a comunidade Asa Branca e sua relação com os imigrantes

A comunidade Asa Branca situada entre as linhas do BRT transolímpica e transcarioca é um lugar acolhedor para os imigrantes. Carlos Alberto, um homem simples e dedicado em ajudar novos moradores é um dos fundadores da favela. Ele explica que nas décadas de 80 e 90 tudo o que se via ali era uma horta, mas com muito trabalho, o local foi ganhando uma aparência urbana. A partir de 2010 com o anúncio da realização dos grandes eventos no Rio de Janeiro como a Copa do Mundo de 2014, e posteriormente, a Olimpíada, Paralímpiada e linhas do BRT, a Asa Branca se tornou a casa de vários haitianos por estar próxima as construções e ter um preço acessível de moradia na época.

— Aqui eles ficam a vontade, não existe tráfico graças a Deus. Eles se sentem em paz nessa comunidade e temos grande facilidade no relacionamento com os haitianos. São super educados — conta o presidente.
Carlos Alberto, presidente da Associação de Moradores da comunidade / Foto: Mayara Leopoldo
— Existem muitos haitianos morando aqui. Eles se sentem muito bem na Asa Branca. Nós recebemos eles com bastante carinho e buscamos ajudá-los — disse Carlos.
Simpático e gentil, Carlos destacou que a Asa Branca está de portas abertas para os imigrantes / Foto: Daniel Valle

Foto: Daniel Valle
Os caribenhos são vistos como honestos, esforçados e educados por todos na comunidade. Estão sempre circulando pelas ruas, descobrindo novas chances de trabalhar de forma honesta.

— Eles são legais. Trabalho com haitianos que moram aqui na Asa Branca e todos são muito trabalhadores. Sem falar que são educados, respeitadores e quase não falam — comenta o vendedor de frutas e morador, Sebastião Pereira.
O comerciante é muito conhecido. Ele vende frutas e legumes na rua próxima ao rio que corta a favela / Foto: Daniel Valle
Foto: Daniel Valle
A moradora Ana Paula traz à tona que por não haver empregos, alguns haitianos estão em situação de rua.

— Eu acho que eles não têm muitas oportunidades. Alguns arrumaram emprego após as obras da Copa de 2014 e Olimpíada Rio 2016, mas outros não. Já vi até haitianos dormindo debaixo do viaduto que fica perto do mercado Mundial. A prefeitura veio e tirou todos. Não sei para onde foram — esclarece Ana.
Sentada na cadeira amarela, Ana Paula mora por mais de cinco anos na Asa Branca / Foto: Mayara Leopoldo
Foto: Mayara Leopoldo
Foto: Mayara Leopoldo

Segundo o presidente Carlos Alberto, o lar espírita Francisco de Assis é o braço direito da comunidade Asa Branca, realizando diversas ações cidadãs e de ajuda para brasileiros ou imigrantes, que realmente necessitam não somente de auxílio espiritual, mas também concernente a alimentos e roupas. Conheça a página deles no Facebook e fique por dentro desse grande lar. Lar Espírita Francisco de Assis

E como está o Haiti hoje, 7 anos após o terremoto?


O 2º sargento Elídio Miguel Ferreira que trabalhou no Haiti como correspondente militar junto a comunicação do BRABAT 26, até setembro de 2017, destaca que o Exército Brasileiro através da ação humanitária MINUSTAH da ONU, foi o braço forte e a mão amiga para o desenvolvimento social desse país.

— Hoje encontramos ruas asfaltadas e o trânsito está melhorando a cada dia. As moradias também estão melhorando, hoje vemos um povo haitiano muito mais feliz e sorridente. As instituições hoje funcionam: escolas, hospitais e a economia vem se recuperando aos poucos. A população haitiana tem condições sim de ser uma grande nação. É um país rico em turismo. São belíssimas praias e cachoeiras e as crianças são assistidas por ONG's e organizações religiosas.
Sargento Ferreira, correspondente militar, fez parte da comunicação do BRABAT 26 no Haiti / Reprodução facebook Elídio

Veja outras fotos da visita à comunidade Asa Branca
A repórter Mayara Leopoldo conversa com uma das moradoras mais antigas, a senhora Gessi Alves / Foto: Daniel Valle
O vendedor de frango assado, Mathias de Sá ressaltou o bom relacionamento com os imigrantes / Foto: Daniel Valle
Anderson Almeida, morador desde criança da Asa Branca / Foto: Daniel Valle
Da esquerda p/ direita: Gilson Alves, Evandro Luiz e Elias Gaspar ficaram felizes com a visita / Foto: Daniel Valle
Na barraca da dona Vanilza Santos rolou um bate-papo com o poeta Cláudio 4-O e o estudante Mateus Andreus / Foto: Daniel Valle
Mateus em pé com 4-O sentado e ao fundo a dona da barraca Vanilza e seu esposo. Eles falam sobre imigração e questões políticas / Foto: Daniel Valle
Foto: Daniel Valle
Foto: Mayara Leopoldo
Foto: Mayara Leopoldo
Foto: Mayara Leopoldo
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